segunda-feira, 16 de março de 2009

Para Angola, à força

"O que vale é que está Sol e as pessoas começam a andar um pouco mais bem-dispostas. Os lusos, decididamente, não estão preparados para meia dúzia de dias chuvosos e outros tantos com os termómetros a marcarem temperaturas com apenas um dígito.

Valha-nos pois estes dias de Sol de Inverno para aguentar tudo o que se vai passando à nossa volta. Aguentar visitas de estadão de um presidente africano, recebido com passadeiras vermelhas e muita espinha dobrada em nome do dinheiro do petróleo.

Aguentar discursos dos grandes estrategas do sítio com o dedo espetado a indicarem aos indígenas o rumo da Pátria. Já foi o dedo de António Guterres para os negócios com o Brasil, que ia derretendo alguns grupos económicos lusos, já foi o dedo do actual senhor presidente do Conselho voltado para Castela e a gritar Espanha três vezes, o mesmo dedo que agora descobriu que o destino está em Angola. Tudo gente com uma enorme visão estratégica, tudo gente a quem o povo deve uma extraordinária qualidade de vida e um futuro verdadeiramente risonho.

É por isso que estes dias de Sol fazem esquecer estes vendedores de banha da cobra, que nos vão entretendo com espectáculos ridículos e patéticos enquanto nos atiram mais um pouco de poeira para os olhos. É por isso que estes dias de Sol são importantes. São importantes para fazer esquecer as sistemáticas queixinhas do senhor presidente do Conselho a propósito de tudo e de nada, normalmente de nada. São as campanhas negras das forças ocultas do caso Freeport que o magoam e irritam muito, são os bota-baixistas da oposição à esquerda e à direita que só dizem mal da sua excelsa obra e não têm uma ideia para a lamentável e miserável situação do sítio, são uns 200 mil estúpidos manipulados por comunistas e trotsquistas que decidiram sair à rua a chamar-lhe aldrabão com todas as letras. Mas neste sítio manhoso, pobre, deprimido e cada vez mais mal frequentado, o Sol tem o efeito de amolecer as almas e as vontades e ajuda a aguentar os canastrões que nos entram todos os dias em casa a infernizar-nos a vida.

Como o poeta de Águeda, que anda por aí a negociar uns lugarzinhos nas listas de deputados e se farta de fazer queixinhas porque alguém lhe disse que não tinha carácter. Sinceramente, se não fosse este tempo maravilhoso e este bonito Sol de Inverno apetecia mesmo mandar estes canastrões e a sua corte de canastrinhas rapidamente para Angola. À força."


Estado do sítio
António Ribeiro Ferreira, jornalista
16 Março 2009 - 09h00