domingo, 30 de março de 2008

O escravo dos tempos modernos

Vende o seu bem mais precioso, o irrecuperável tempo, em troca de tudo o resto. Refém da hipoteca da sua própria casa e/ou do necessário abastecimento de bens essenciais para a familia este individuo é forçado a prescindir da sua vida própria em prol de uma máquina universal de trabalho implacável, castradora e criada pelo próprio homem. Desenraizado e forçado a conviver com outros mais ou menos conformados e sem consciência da sua condição, a viver num mundo fantasiado, rodeados de bens supérfulos e ridículos, treinados desde tenra idade em ambiente de concorrência permanente comportam-se como animais atiçados uns com os outros, estes a quem eu apelido de "zumbis", são os obreiros e cães de fila da máquina, que os recompensa de acordo com um padronizado "status" social.
Fugir a esta máquina oleada é a chave da felicidade, o gerir aleatório e cíclico do tempo que dedicamos ao abastecimento das vitais provisões e o restante tempo para dedicar á familia, á comunidade e aos mais velhos, e o precioso tempo que dedicamos a nós próprios, ás nossas ideias, hobbies ou ao simples enriquecimento pessoal através do conhecimento, para desta forma tornarmo-nos melhores indivíduos na nossa condição humana e não pela quantidade de bens que acumulamos pela vida fora ou simplesmente pela capacidade de consumo.
Quanto maior for esse mesmo consumismo, maior será o grilhão que nos prende á máquina.
Libertem-se!!!!


quarta-feira, 26 de março de 2008

How Fortunate the Man with None

From the play "Mother Courage"

You saw sagacious Solomon
You know what came of him,
To him complexities seemed plain.
He cursed the hour that gave birth to him
And saw that everything was vain.
How great and wise was Solomon.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's wisdom that had brought him to this state.
How fortunate the man with none.

You saw courageous Caesar next
You know what he became.
They deified him in his life
Then had him murdered just the same.
And as they raised the fatal knife
How loud he cried: you too my son!
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's courage that had brought him to that state.
How fortunate the man with none.

You heard of honest Socrates
The man who never lied:
They weren't so grateful as you'd think
Instead the rulers fixed to have him tried
And handed him the poisoned drink.
How honest was the people's noble son.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's honesty that brought him to that state.
How fortunate the man with none.

Here you can see respectable folk
Keeping to God's own laws.
So far he hasn't taken heed.
You who sit safe and warm indoors
Help to relieve our bitter need.
How virtuously we had begun.
The world however did not wait
But soon observed what followed on.
It's fear of god that brought us to that state.
How fortunate the man with none.

Bertolt Brecht

segunda-feira, 24 de março de 2008

A ilha II


As iguarias


A ilha é rica em aromas e sabores, mas poucos são os que sabem aproveitar estas potencialidades, exceptuando um conhecido cozinheiro autodidacta, artista plástico de formação que mistura a sua "arte" com saber gastronómico, atraindo uma verdadeira legião de peregrinos de todos os cantos do mundo. O enorme carácter deste esclarecido revela-se no amor que dedica á sua obra como "criador", ao seu trabalho, á sua família e á comunidade que o envolve, bem como na obra social que dele depende. Foi com enorme prazer que conheci a sua obra, as suas iguarias e a sua filosofia de vida, da qual comungo.
Referencia á moamba de galinha e á deliciosa sobremesa de côco preparados por alguém que para além de afamada cozinheira, é também um coração enorme e aberto, sempre disponível para ajudar quando necessário. Não esqueço a forma como me salvou dois dias arruinados pela "burrocracia" e incompetência dos organismos oficiais.
E por último o famoso kalulu, o difícil kalulu, que surgiu por acaso nos últimos dias da curta estadia, como que a premiar o bolo dos dias passados com a cerejinha no topo. O peixe fresco e seco, as ervas aromáticas recolhidas nessa manhã e meticulosamente cortadas á mão, o preparar em brasas (porque no fogão a gás sabe diferente dizem), a mandioca, a banana, e a agradável conversa numa humilde casa que resiste ainda ao tempo dando guarida a outra comunidade abandonada á sua sorte.
Ainda existe quem sabe...

terça-feira, 4 de março de 2008

A ilha

Possui uma geografia física única e apaixonante, de origem vulcânica e vestida por um luxuriante manto verde de floresta equatorial, uma flora e fauna classificada como património mundial, praias de água transparente, em tonalidades de verde e azul, rica em peixe que a tornam um destino obrigatório para os apaixonados pelo mergulho. Estaria a descrever um paraíso não fosse a presença do homem, essa praga, que destroi tudo o que está ao seu alcance.



A sua geografia humana e história lamentável fazem deste paraíso um pequeno inferno para aquele que teve a infelicidade de lá nascer e ser nacional de um pais fantoche liderado por uma pequena monarquia disfarçada de democracia, simplesmente porque fica mal ser de apenas um partido único de teor comunista nos dias que correm.
Armada com uma legislação hilariante, esta pequena casta dirigente absorve para si toda a ajuda internacional e saqueia os restantes 95% da população que não passa fome graças á riqueza natural da terra e de algumas ruínas de infraestruturas deixadas ao abandono por caras pálidos obrigados a abandonar o fruto do seu trabalho á luz de uma revolução rácica e marxista.
A propaganda tomou o lugar da educação, os cuidados de saúde são inexistentes, a saúde pública constantemente ameaçada por cães abandonados e doentes, esgotos a céu aberto, lixo sem recolha ou tratamento, tudo isto encarado com uma normalidade irritante, de quem nunca conheceu uma outra forma de estar, e de uma dormência também irritante dos poucos afortunados que já conheceram outras culturas. Claro que nada disto aparece nas noticias da RTP África ou vem descrito num qualquer romance que tenha os trópicos como pano de fundo.
Os nativos destas ilhas, páridas sem ter direito a opção, exibem um orgulho exacerbado pela propaganda intoxicante de que são vítimas, em alguns casos agravado ainda por uma tentativa de disfarçar absurdamente um complexo de inferioridade induzido por preconceitos rácicos. Destaco as excepções com que me cruzei e que relato em pequenas histórias que completam a aventura.




Abram alas, sua Exa. vai voar e o passeio do palácio

Na sala de embarque, depois de um atribulado check-in, já com as bagagens dentro do aparelho surge o telefonema do "estado maior general do staff de suas exas" vulgo "sistema", bagagens fora do aparelho e vai de esperar cerca de 6 horas para que sua Exa terminasse uma reunião e juntamente com a sua comitiva de serviçais, lambe-botas, altas patentes militares e outras sanguessugas usurpou o aparelho, que por esta hora já tinha tido tempo de ir e regressar nas calmas (a viagem dura uns míseros 35 minutos) no mínimo duas vezes, para uma deslocação inter-ilhas concerteza para resolver um assunto de estado urgente... (ou seria apenas uma almoçarada?).
Dos dois voos agendados para esse dia apenas um se realizou, com a consequência de alguém ter de ficar de fora, contas feitas, acabou por ficar em terra uma equipa de profissionais de saúde carregada de material hospitalar, era de prever, não pagaram bilhete... tss tss... no valor de 3 ou 4 ordenados mensais... O avião é propriedade de um particular, empresário europeu que possui um famoso resort ávido de um abastecimento constante de turistas endinheirados que, como é lógico, não se coaduna com horários africanos... Esta personagem faz o nobre favor de ceder (mediante certa quantia) o avião ás linhas aéreas locais para 2 ou 3 voos por semana sempre sujeitos a cancelamentos surpresa.

Num dos passeios a pé pela capital passo por um "STOP" escrito á mão no chão de um passeio junto ao palácio do (des)governo (julgo eu), com uma seta a apontar para a estrada, continuo a andar indiferente ao insólito sinal e reparo num militar armado com uma espingarda automática AK47 a fazer-me sinais estranhos com a mão, ao passar por ele sou repreendido como se fosse algum criminoso:
- Não me viu a fazer-lhe sinal?
- Não percebi a sinalética...
- Tem que circular na estrada, não pode andar no passeio do palácio... não viu o STOP?
- Ehrrr não... se eu tenho de circular na estrada por onde circulam os carros?
- Tem sorte em ser turista e não saber as regras deste país! Senão iria preso!
O diálogo terminou ai, a última coisa que queria era conhecer a cadeia naquele ermo, bastou conhecer o mercado... e depois, um homem armado com um fuzil automático tem sempre razão...


É branco - É rico!

E eu até nem sou branco, sou mestiço fruto de uma família multirracial mas nem assim me livrei deste mito entranhado na mentalidade dos nativos destas ilhas. As maiores facilidades apresentadas no inicio da negociação, onde nunca se fala de preços levam o incauto a aceitar tudo e a ficar sem alternativa na hora final quando lhe apresentam a conta, por isso, olhos bem abertos, como em qualquer outra parte de África, negociar é uma arte, tudo é negócio, e lembrem-se sempre de falar no preço antes de aceitar seja o que for... Não digam que não avisei... Até aqui tudo bem, o problema surge quando aparece "o tal" Chico esperto típico que se julga superior e muito "vivo" ai nesse caso é inevitável terminar em confusão!

O Guia

No interior da ilha, montanhoso, coberto por uma luxuriante vegetação existe um parque natural outrora financiado pela UE, neste momento ao cuidado de um grupo local e ONG's maioritariamente francesas. Os trilhos a percorrer a pé pela floresta chegam a qualquer parte da ilha em distancias "relativamente" curtas, mas é necessário conhecer-los bem. O nosso guia foi recrutado a uma ONG local e surgiu fruto de uma conversa instantânea á chegada. Na casa dos 30 anos, admirei de imediato a sua calma forma de estar, a voz meiga e o falar pouco além do estritamente necessário, raro numa cultura que adora o exibicionismo pessoal. Acertamos os valores (África) e partimos de imediato. Ao percorrer os trilhos, os segredos da floresta, a sua flora e fauna iam sendo desvendados por aquele esclarecido nativo. Admirável a forma como caminha de sentidos alerta, reconhecendo sons, e as utilizações práticas de cada folha, casca ou raiz, conhecimento empírico mas sem dúvida interessante. Fascinante a forma delicada como tocava nas folhas e flores enquanto se esforçava para nos transmitir os conhecimentos que possuía, revelador de um profundo respeito pela natureza e pelas formas de vida que dela dependem. Sem dúvida merecedor de uma bolsa de formação numa qualquer área biológica á sua escolha. Pena eu não ter uma fundação... Não teria o meu nome nem seria apenas para usufruto de dinheiros públicos como algumas que proliferam por ai...

Turtle Auschwitz

As diversas espécies de tartarugas já sentem uma enorme dificuldade em encontrar uma praia livre da presença massiva do homem em zonas tropicais, para aumentar ainda mais a dificuldade de sobrevivência dos novos rebentos de tartaruga, para além das aves de rapina, raposas, humanos, uma panóplia de predadores marinhos que as esperam no seu primeiro mergulho da vida, existe agora uma nova ameaça: o ecologista/protector dos animais. Pois é! Este novo predador, possuidor de uma estratégia infalível para caçar tartarugas bebes em massa que consiste em caçar em grupo, liderados por um ecologista de renome europeu, que injectou dinheiro numa pequena comunidade local em troca da construção de um pequeno resort "ecológico" promove uma onda de recolectores de ovos de tartaruga, (cuidado que até o simples turista pode fazer este papel), para os levarem para um centro de incubação a que eu apelidei de "turtle auschwitz". Um pequeno quadrado 4x4 mts em cimento com a altura de 7 - 10 cm cercado por uma rede de galinheiro esburacada por cães, gatos, raposas ou outros animais de duas a quatro patas. As tartarugas cujos ovos tenham sido descobertos e recolhidos neste "centro de incubação" ficam assim a depender de um milagre para conseguir chegar ao mar, a não ser que depois de lutar contra um gavião, duas raposas, e um cachorro sarnento, tenham nascido com aptidão para o salto á vara para ultrapassar o muro de cimento para fugir da insulação, e chegarem ao mar depois de se desviarem de uns quantos turistas com máquinas fotográficas a cega-las terem ainda força para enfrentarem os peixes... Vida complicada das tartarugas em África...

Em edição os textos:
Turtle auschwitz
O guia
e outros ainda sem título para breve...