O destino levou o índio a Bissau, Capital da Guiné Bissau, antiga colónia Portuguesa, descrita por influentes personagens da comunicação social (que provavelmente nunca puseram os pés em África muito menos sentiram a guerra) como "O Vietname Português", foi num clima apreensivo que dei os primeiros passos pelas ruas paradas no tempo desta cidade outrora cativante mas que hoje exibe as marcas da guerra recente pelos edifícios esburacados por balas, ruas empoeiradas, onde tenta resistir algum alcatrão ainda de outros tempos. Tudo se vende em bancas improvisadas bem ao estilo africano, parei para comprar cigarros avulso numa delas e estabeleci diálogo com um comerciante, o seu fluente Português surpreendeu-me pois encontro hoje muitos adolescentes formados nas nossas escolas que não possuem metade do vocabulário empregue por este esclarecido e humilde ser humano, ultrapassados os receios de ambas as partes o diálogo fluiu como o tempo, fiquei a saber todas as informações, "dicas" importantes para me poder "desenrascar" naquela cidade, onde comer, o que deveria visitar e de quem deveria manter-me afastado, aproveitei para cambiar moeda e deixei a conversa chegar ao inevitável tema do passado recente, inicialmente evitei o tema, mas rapidamente me vi envolvido nele, não queria despertar nenhum ressentimento, e eis que me vejo confrontado com a pergunta inesperada - "Porque é que vocês nos abandonaram á nossa sorte?" Não respondi, procurei durante alguns segundos alguma razão, uma resposta aceitável, algo... mas apenas consegui encolher os ombros e olhar para o fim da rua, sem ter tempo para me recompor surge outra afirmação - "Estamos a falar a mesma língua, somos como irmãos, somos ambos Portugueses..." ao que respondi, "Não amigo M... , eu sou Português e tu és Guineense..." e ficamos ambos sem palavras, e com dificuldade em balbuciar o que quer que fosse, despedi-me dele e fiquei com um estranho sentimento de culpa... senti que o magoei com a minha afirmação, a crua verdade por vezes não nos soa bem...
Continuei ao acaso, a deambular por avenidas largas, a espreitar o artesanato, a interagir com diversas crianças que se acercavam na esperança de obter uma moeda, ou simplesmente para dar uns pontapés numa bola improvisada, a deliciar-me com uns cajus aqui, uma manga acolá, estes sabores incomparáveis e inesquecíveis que só em África, não adianta procurar em nenhuma MegaHiperSuper superfície comercial... Até encontrar um outro amigo de ocasião, o B... que acabado de sair do seu "emprego" se prestou a levar-me numa visita guiada, começando por sugerir um café esplanada muito badalado, nos arredores da cidade, desconfiei, mas acabei por ceder, pois já tinha ouvido falar no tal "hot spot". A viagem de táxi dava outro post... o motorista ao ver-me apressou-se a correr com o cliente que tinha dentro da viatura e abrir-me a porta... estava gerada a confusão, que terminou com todos dentro do táxi, afinal até havia lugar para todos e eu não tinha pressa, até soube bem dar mais umas risadas e uma volta extra pela cidade... Ao afastar-me do centro acerco-me da dura realidade dos arredores, uma gigantesca favela, barracas a perder de vista onde tudo serve para um negócio de ocasião, a tal esplanada fortemente guardada tinha tudo o que qualquer "Piaza" ou "BBC" tem, excepto a vista, esta dava para uma favela, local frequentado por estrangeiros e mulheres locais, bebi um martinni e joguei mais conversa fora, a historia de vida impressionante do B... emigrante de nacionalidade Senegalesa misturava o fraco Português com Francês e Inglês, o entendimento era perfeito, o ambiente nem por isso, ainda guardo na memória as cicatrizes que orgulhosamente me mostrava obtidas a bordo de um navio de pesca espanhol que dizima juntamente com navios chineses e russos as riquezas subaquáticas dos bijagós... Descubro que o B... mora a cerca de 100mts daquele local e aceito o seu convite para conhecer a sua casa, aqui começa a descida ao Inferno onde vivem milhares de pessoas sem o mínimo de dignidade, as "ruas" estreitas, o cheiro nauseabundo, os insectos, os roedores convivem lado a lado numa louca normalidade, a dura luta pela sobrevivência e a grandiosa obra que o "diabo" desenvolve naquelas paragens parecem saídas das páginas do Inferno de Dante... A casa de B... uma barraca em madeira com telhado de zinco onde se cozinha á porta em panelas esburacadas sobre brasas, mas onde fui recebido com calor humano e humildade... Obrigado por tudo B... tens muito mais valor do que algumas "amizades" que me estão próximas... Uma coisa é ver na televisão este cenário, vivê-lo marca-nos, transforma-nos, abre-nos os olhos, faz-nos pensar no sentido de tudo isto, e claro surge a pergunta - Onde estão os responsáveis por tudo isto? Sentados nas suas belas cadeiras, refastelados, ou escondidos na nossa história recente?
Ao ver os navios no porto a descarregarem SUV's novos da Mercedes o sentimento de revolta faz-me virar costas, o valor de uma daquelas viaturas permitia abrir uma biblioteca? equipar um hospital? uma escola? Até quando teremos de suportar esta geração rasca que nos governa os destinos? E muito mais havia para contar...



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