domingo, 22 de fevereiro de 2009

A velha louca e o homem rico e respeitado

Cresci a visitar esporadicamente um café onde costumo encontrar algumas das ovelhas negras da minha tribo. Assisti ao longo de todos estes anos a muitas mudanças no bairro, o aumento exponencial da população residente, a chegada das infraestruturas modernas, naquele lugar ermo onde apenas 3 moradores possuíam viatura própria hoje existem mais viaturas do que residentes. Está hoje incluído na área metropolitana de uma grande cidade. À medida que estes 25 anos foram passando, segui atentamente a evolução natural e foco este "post" em dois seres, um homem e uma mulher que partiram em situação de igualdade. O homem tomou conta de um café incluído num prédio de habitação, e a mulher, professora, residia imediatamente acima deste café. O homem enriqueceu fácil e rapidamente, vampirizando as almas egoístas e ambiciosas logo solitárias que fugiam à loucura que os ia esperando pacientemente todas as noites em suas casas desertas, este tipo de criatura, procurava o café para se gabar em alta voz sobre quantos idiotas teriam sido vigarizados naquela semana ou quantas "donzelas" teriam penetrado em troca de alguns tostões, este último pormenor frequentemente ocultado, era partilhado apenas com os "melhores amigos" e que por sua vez partilhavam também com os seus eleitos e por ai fora.
Vampirizando aqueles que confrontados com a realidade social ou familiar dedicavam inteira devoção ao álcool que segundo diziam, nunca os abandonaria, ao contrário da família, essas hediondas criaturas que constantemente os torturavam ao não deixa-los ver o canal de TV preferido, ou a velha tortura das tarefas domésticas, esposas que morriam de ciumes ou inveja da sua cada vez mais próxima relação poligâmica e platónica com os diversos néctares inebriantes.
Vampirizava aqueles que por dificuldades orçamentais vacilavam entre o desejo e a impossibilidade de contratarem um "PayTV" para seguirem a "futebolinca" ao fim de semana, a troco de um cafezito acompanhavam o futebol nacional e as diversas ligas espalhadas por esse mundo fora, aumentando a sua já vasta cultura futebolística a níveis nunca antes sonhados, ai daquele que se atrevesse a dizer alguma asneira do tipo - "Mas afinal quem é esse tal de nany? Ou seria dany?". Este "inculto" sem vergonha era escorraçado e ostracizado imediatamente do grupo dos sabichões da bola. O grupo a que pertencia um ilustre sabichão imbatível em estatísticas, factos, dados secretos e sempre com as novidades mais fresquinhas que declamava em alta voz para manter o seu estatuto de mestre em ciências futebolísticas e que terminava sempre com a frase: - "Não me digam que não sabiam" proferida arrogantemente olhando de alto para os débeis seguidores que se roíam de inveja por serem ultrapassados mais uma vez. Uma curiosidade, este tipo hoje finge não conhecer os seus antigos discípulos, ao passar a ser catedrático em ciências futebolísticas, este talento não podia passar em claro e foi contratado por um "órgão de (des)informação" para elucidar a pobre nação ignorante das matérias de interesse estratégico vital que tão habilmente domina. Ah e claro, para ser mais um isento "jornalista" desportivo a defender o clube possuidor do maior estádio do mundo e possivelmente da Europa contra os terríveis adversários que teimavam em não deixarem esse tão glorioso clube ser campeão e nunca deixar o seu palmarés ser ultrapassado pelo palmarés de todos os outros clubes juntos. Vocês sabem do que é que eu estou a falar... do sistema claro! :)
Regressando ao tema do "post"...
Vampirizava igualmente outras aves raras que esporadicamente lá apareciam, grupo onde me incluo, e que é sempre recebido com a frase: "Há muito tempo que não vinhas cá..." com aquele olhar de cachorro abandonado que me fazia sentir como um casado que foi descoberto a trair a "esposa" com o café do outro lado do bairro. Observação caluniosa à qual sempre retorqui: "errr... pois...é a vida... A vida e um café sff...".
A técnica utilizada era simples, uma placa a dizer que naquele estabelecimento jamais haveria fiado ou "borlas", regra seguida com fervor e fanatismo religioso, eu tentei algumas vezes sacar uma de borla mas em vão... Ao que apurei, nem mesmo os frequentadores diários. Debaixo de uma máscara de simpatia forçada, acedia a pedido dos próprios patos a permanecer no café até as 2h, 3h, ou mesmo até de manhã segundo alguns relatos que me chegaram. Este homem é hoje dono de um mini império pessoal onde se inclui uma propriedade rural, casas e apartamentos que aluga por valores muito acima de um ordenado mínimo, hoje relata com orgulho a todos ser ele a prova viva da velha máxima "dinheiro gera dinheiro" e é hoje um homem modelo, um "self made man", um respeitado cavalheiro, largamente conhecido.
No revés da medalha estava a senhora que se levantava com o sol, nas noites em que conseguia abstrair-se do constante ruído de fundo provocado pela espelunca que tinha como vizinhança, para tentar educar os filhos selvagens daqueles que por ironia não a deixavam dormir com a paz a que todos deveríamos ter direito, estes gabarolas de café, trocavam a educação e consequentemente o futuro dos seus próprios filhos por umas larachas de café que culminava em bebedeira humilhante. Os anos sucederam-se e à medida que o homem enriquecia, a mulher envelhecia em 20 anos o equivalente a 40 ao mesmo tempo ia isolando-se cada vez mais, como que resignada com tudo aquilo que a rodeava. Julgo que terá tentado no início e por algumas vezes fazer os pançudos da autoridade fazerem cumprir a lei mas em vão... Segundo o que circulava, em surdina, o dinheiro da multa em vez de ir para o estado ficava logo ali, nos bolsos da lei e da grei a metade do valor, na noite seguinte estava a festa montada de novo. Nestes 20=40 anos, a esforçada professora foi esmorecendo, enfraquecendo, assisti à sua decadência sem nunca me ter importado muito com isso, sei disso hoje, mas na altura estava longe de antever o desfecho daquela evolução, tinha a minha própria vida para cuidar, e achava que as outras pessoas deveriam fazer o mesmo, estava a olhar apenas para o meu umbigo. O divórcio surgiu, e todos defendiam o "tipo" que tinha tido o infortúnio de casar com aquela senhora irritante, sempre com cara de poucos amigos, diziam, no intervalo da futebolinca, "ela até era simpática quando veio para aqui morar, se a minha mulher ficasse assim eu também me divorciava".
Sei hoje que a companhia do marido a quem ela dedicou uma boa parcela da sua vida era a última coisa que a ligava ao mundo real. Foi o momento em que esta senhora passou as portas da percepção para nunca mais voltar, hoje desempregada por motivos óbvios, recebe provavelmente uma pensão de sobrevivência igual à de muitos "gandulos" com casa dada pela câmara com rendas simbólicas que se recusam a pagar e com o negócio do haxixe sempre em "part-time", e espera a morte em permanente angústia numa instituição dedicada a estes casos, uma instituição que tem cada vez mais clientes. Nos últimos dias, a sua actividade era vir à varanda, freneticamente, gritar bem alto todo o léxico de palavrões que tenho conhecimento. De robe, de pijama, nua, a chover, a fazer sol, era um ritual macabro repetido vezes e vezes sem conta, 365 dias por ano. O que no início foi uma chacota geral no bairro passou a ser no fim a pessoa mais acarinhada por aqueles mesmos que a destruíram, seria sentimento de culpa daqueles trastes? Julgo que aqueles imbecis não terão capacidade para pensar tão profundo.
Para quem dirigia ela aquelas rudes palavras que repetia diariamente vezes sem conta? Aos ruidosos vizinhos? Ao marido? Ao mundo? A ela própria? Esta resposta foi com ela, no fundo não interessaria a ninguém.
O ilustre membro influente no bairro, o benemérito social que nem deve ter pago 1% do que devia ao estado pois nunca o vi registar vendas, é hoje em tempo de crise o alvo preferencial de todo o tipo de ladrões e desesperados da zona sendo repetidamente assaltado. Será a justiça universal? A colheita daquilo que plantamos? Ou o acaso do caos?
Vidas estranhas as do homem branco...

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