quarta-feira, 10 de março de 2010

Mais sobre o Tibete

Há dois anos, confrontos com chineses da etnia han (minoritários no Tibete mas largamente maioritários na China) fizeram duas dezenas de mortos – segundo os números oficiais, já que algumas fontes apontam para 200 –, lojas pilhadas, carros incendiados. As manifestações para assinalar o aniversário do levantamento contra a ocupação chinesa, a 10 de Março de 1959, que levou Dalai Lama para o exílio, acabaram assim nos piores incidentes em duas décadas.

Desta vez, e à imagem do que aconteceu no ano passado, as autoridades apertaram ao máximo as medidas de segurança. O diário britânico “Times” noticia que 500 pessoas foram detidas, de acordo com fontes que não quiseram ser identificadas.

O jornal adianta que a população tem recebido ordens para andar sempre com identificação (bilhete de identidade, autorização de residência e uma carta de autorização para estar em Lhasa). A papelada tem de ser mostrada até nas escolas e nos locais de trabalho. Para além disso, os visitantes estrangeiros estão impedidos de entrar no Tibete desde ontem.

A AFP confirma o clima tenso. “Há todos os dias patrulhas mas elas multiplicaram-se”, declarou um empregado de um hotel da cidade. “Há dois ou três membros da polícia armada em cada quarteirão.”

No seu discurso anual para marcar o aniversário do levantamento, feito a partir de Dharamsala, na Índia, o líder espiritual tibetano acusou a China de estar a tentar “aniquilar o budismo”. O Dalai Lama denunciou “as condições presidiárias” em que os monges e freiras estão a viver, “privados da possibilidade de estudar e praticar em paz. Estas condições tornam os mosteiros museus e pretendem aniquilar o budismo”, cita a BBC online.

“Quer o Governo chinês o reconheça ou não, há um problema sério no Tibete”, declarou ainda. “As autoridades chinesas estão a conduzir ferozes campanhas políticas, incluindo a campanha de re-educação patriótica, em muitos mosteiros do Tibete.”

Ainda assim, salientava a agência francesa, o Nobel da Paz reconhece que tem “um pouco de esperança” num compromisso com as autoridades chinesas. Mas não será para já. “Não conseguimos nenhum resultado tangível e temos poucas esperanças que o obtenhamos a curto prazo”, disse.

Há anos que os contactos entre os dois lados do diferendo sobre o estatuto do Tibete estão num impasse. Pequim, que mantém que o Tibete faz parte da China desde o século XIII (argumento contestado pelos responsáveis tibetanos no exílio) acusa o Dalai Lama de separatista. O líder espiritual garante que defende apenas uma autonomia alargada para o território.


in Publico 2010-3-10

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